
O ‘Hoje’ de Deus: por que o momento presente é o único que importa para a fé
A armadilha do tempo: entre o peso do passado e a ansiedade do futuro Na agitação da vida moderna, a mente humana parece habitar em
Na agitação da vida moderna, a mente humana parece habitar em todos os lugares, exceto no único onde a vida realmente acontece: o presente. Somos constantemente assombrados por memórias do que já foi e paralisados pela ansiedade sobre o que ainda virá. Nesse fluxo incessante de pensamentos, a fé corre o risco de se tornar um projeto para o amanhã ou uma lamentação sobre o ontem. Contudo, a sabedoria perene da Igreja nos convida a uma profunda redescoberta: para Deus, o único tempo que existe é o agora.
É no momento presente que a graça divina se manifesta, que o chamado à conversão ecoa e que a nossa salvação é tecida, decisão por decisão. Compreender a sacralidade do “hoje” é mais do que uma técnica de bem-estar; é uma verdade teológica fundamental que tem o poder de transformar radicalmente a nossa jornada espiritual.
Para aprofundar essa visão, é essencial distinguir dois conceitos de tempo herdados da tradição grega e adotados pela teologia cristã: Chronos e Kairós. Chronos é o tempo que medimos no relógio, o tempo sequencial, quantitativo, que rege nossas agendas e compromissos. É o tempo que passa, que envelhece e que, por vezes, nos aprisiona.
Por outro lado, Kairós é o tempo de Deus. Não é uma medida, mas uma qualidade. É o momento oportuno, o instante de graça, a intervenção divina na história. Quando a Sagrada Escritura nos exorta, como no Salmo 95, “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações”, ela não se refere a um dia específico do calendário, mas a cada Kairós, a cada oportunidade que Deus nos oferece para acolher seu amor e mudar de vida.
O grande Doutor da Igreja, Santo Agostinho, em suas “Confissões”, mergulha no mistério do tempo. Com genialidade, ele argumenta que o passado já não existe, a não ser na memória, e o futuro ainda não chegou, existindo apenas como expectativa. A única realidade tangível é o instante presente. É neste ponto de encontro entre a nossa temporalidade finita e a eternidade de Deus que a vida espiritual floresce.
Viver no presente é, portanto, o único caminho para viver na presença de Deus. Adiar a oração, o perdão ou a caridade para um “depois” incerto é ignorar que Deus nos espera agora. A santidade não é um grande evento futuro, mas a soma de pequenos “sins” dados a Deus nos desafios e alegrias de cada momento.
Esta reflexão ganha um significado especial no contexto litúrgico do Tempo Comum. Após as grandes solenidades, a Igreja nos convida a caminhar com Cristo no dia a dia, a encontrar Sua presença nas circunstâncias mais ordinárias da vida. O Tempo Comum é, por excelência, o tempo do Kairós disfarçado de Chronos. É o tempo de santificar a rotina, de descobrir a graça escondida no trabalho, na família e nos encontros cotidianos.
A verdadeira missão do cristão não é esperar por momentos extraordinários, mas tornar extraordinário cada momento ordinário através da fé, da esperança e da caridade. É no “hoje” que somos chamados a ser sal da terra e luz do mundo, respondendo com ações concretas ao amor de Deus que nos interpela incessantemente.

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