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"História de uma Alma" é a autobiografia espiritual de Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897), escrita para suas superioras por obediência. O livro, traduzido por Frei Ary E. Pintarelli, OFM, e publicado pela Editora Vozes, detalha sua jornada espiritual desde a infância até sua morte, revelando sua “Pequena Via da Infância Espiritual”.
A obra começa com as primeiras notas de um cântico de amor, onde Teresa expressa sua alegria em narrar as misericórdias do Senhor. Ela se ajoelha diante de uma estátua de Maria e, abrindo o Evangelho, encontra a passagem: “Tendo subido ao monte, Jesus chamou os que ele quis” (Mc 3,13). Essa passagem revela o mistério de sua vocação e dos privilégios de Jesus para sua alma, pois Ele não chama os dignos, mas aqueles que lhe agradam, pela Sua misericórdia.
Teresa se questionava por que Deus concedia graças em medidas desiguais. Jesus lhe revelou esse mistério através da analogia da natureza: assim como todas as flores (rosas, lírios, violetas, margaridas) são belas em sua diversidade e cumprem a vontade de Deus, as almas também são diversas. Algumas são grandes santos, outras são pequenas e simples, mas todas são amadas igualmente por Deus, que se digna a descer até os corações mais humildes.
Primeiros anos e perdas:
- Teresa descreve sua infância feliz e amorosa, com a inteligência precoce e memória vívida. Sua afeição era expansiva e sensível.
- Ela amava muito seus pais, especialmente seu pai, a quem chamava de "rei" ou "rainha". Sua mãe a descrevia como "traquinas" e com uma "teimosia quase invencível", além de um grande amor-próprio.
- Desde os dois anos, influenciada por sua irmã Paulina, Teresa teve o desejo de ser religiosa, uma resolução da qual nunca mudou.
- Aos quatro anos e meio, a morte de sua mãe marcou uma mudança profunda em seu temperamento: de viva e expansiva, tornou-se tímida, doce e excessivamente sensível.
- Aos sete anos, ela teve a experiência de sua primeira confissão, compreendendo que falava diretamente com Deus e sentindo uma alegria imensa.
- Aos oito anos e meio, entrou para o colégio das Beneditinas, enfrentando a inconstância das amizades humanas, o que a levou a compreender que a verdadeira alegria não está nas criaturas.
A cura milagrosa e o chamado:
- Após a entrada de Paulina no Carmelo, Teresa foi acometida por uma doença estranha, marcada por dores de cabeça, tremores, delírios e terrores inspirados pelo demônio. Ela via pregos como dedos carbonizados e temia precipícios no leito.
- Essa doença foi curada por um milagre da Virgem Maria, que lhe sorriu visivelmente da estátua, trazendo-lhe paz e alegria celestial. No entanto, ao revelar o milagre, ela sentiu sua felicidade se transformar em angústia, um tormento que durou quatro anos, levando-a a compreender a humildade.
- Sua primeira comunhão foi um momento de "fusão" com Jesus, onde ela sentiu-se amada e entregou-se para sempre, desejando unir-se à "Força divina".
- Aos 10 anos, Jesus lhe revelou interiormente que sua glória não brilharia aos olhos dos mortais, mas consistiria em tornar-se uma santa, um desejo que nutriria com audaciosa confiança, não por seus méritos, mas pela Virtude e Santidade de Cristo.
- Aos 12 anos e meio, Teresa foi assaltada por uma terrível doença dos escrúpulos, que a atormentou por quase dois anos, tornando todas as suas ações motivos de perturbação.
- Aos 13 anos, teve que deixar o colégio. Sua sensibilidade e amor-próprio ainda eram evidentes, mas ela foi guiada a superá-los.
A graça do Natal e o zelo pelas almas:
- Aos 13 anos e 9 meses, na noite de Natal de 1886, Teresa experimentou uma completa conversão, um "milagrezinho" que a libertou de sua sensibilidade excessiva e a revestiu de força e coragem. Essa noite marcou o início de uma "corrida de gigante" na caridade.
- A partir desse momento, a caridade entrou em seu coração com a necessidade de se esquecer de si mesma, e ela sentiu-se feliz.
- Inspirada pela imagem de Jesus crucificado e seu brado "Tenho sede", Teresa sentiu uma imensa sede de almas e o desejo ardente de arrancá-las das chamas eternas.
- Sua primeira conquista foi a conversão de Pranzini, um grande criminoso condenado à morte. Sua oração foi atendida quando ele beijou o crucifixo três vezes antes de sua execução.
- Ela cultivou uma doce intimidade com sua irmã Celina, que se tornou sua confidente íntima e "irmã de alma".
- Aos 15 anos, obteve de seu pai a permissão para entrar no Carmelo.
A entrada no Carmelo e a "Pequena Via":
- Enfrentou obstáculos para sua entrada no Carmelo, inclusive a oposição de seu tio e do Superior.
- A viagem a Roma e a audiência com o Papa Leão XIII foram cruciais. Apesar da proibição de falar, ela ousou pedir ao Papa a permissão de entrar no Carmelo aos 15 anos, sendo respondida: "entrará se o bom Deus quiser".
- Em Roma, ela também compreendeu a importância de rezar pelos sacerdotes, cuja dignidade os eleva, mas que, sendo homens, são fracos e frágeis.
- Teresa entrou no Carmelo em 9 de abril de 1888. A princípio, tudo lhe pareceu encantador e sentiu uma paz profunda.
- No entanto, seus primeiros passos na vida religiosa foram marcados por aridez e severidade por parte da Madre Priora, que a tratava com rigor para evitar que ela se tornasse o "brinquedo da comunidade" e para que não se apegasse humanamente ao claustro. Esse sofrimento a levou a um profundo crescimento na humildade e desapego.
- Sua vocação no Carmelo era clara: "Vim para salvar as almas e, sobretudo, a fim de rezar pelos sacerdotes".
- Recebeu a confirmação de que jamais havia cometido um pecado mortal, sentindo que era um dom gratuito de Deus.
- Aos poucos, compreendeu que a verdadeira realeza consistia em ser ignorada e considerada um nada, ansiando por sofrer e ser esquecida.
- A neve no dia de sua tomada de hábito (10 de janeiro), apesar da temperatura amena, foi um "pequeno milagre" que ela pediu e recebeu, simbolizando a pureza e a condescendência do Esposo.
- A doença e morte de seu pai foram um martírio que ela e suas irmãs ofereceram a Deus.
- Sua profissão foi fixada para 8 de setembro de 1890.
- Teresa desenvolveu a "Pequena Via", compreendendo que a santidade não exige obras extraordinárias, mas uma atitude de criança que se abandona totalmente nos braços de Jesus. O "ascensor" para o céu são os braços de Jesus, e não a difícil escada da perfeição.
- Como mestra de noviças, ela se via como um "pincelzinho" que Jesus usava para pintar Sua imagem nas almas, agindo com simplicidade e dependência divina.
- Sua compreensão da caridade fraterna era profunda, baseada no amor de Jesus. Ela aprendeu a suportar os defeitos do próximo, a edificar-se com suas virtudes, a antecipar desejos e a dar sem esperar retorno. A caridade, para ela, devia ser uma candeia que ilumina e alegra a todos na casa.
- Sua oração era um "impulso do coração", um "simples olhar lançado para o céu", um "grito de reconhecimento e de amor", não necessitando de grandes fórmulas. Ela acreditava que a oração tem o poder de uma "rainha que tem sempre livre acesso junto ao rei e que obtém tudo o que ela pede".
- Jesus uniu-a espiritualmente a dois irmãos sacerdotes missionários, e ela ofereceu seus méritos e orações por eles. Sua interpretação da passagem "Atraí-me..." dos Cânticos era que, quando uma alma é atraída pelo amor de Jesus, todas as almas que ela ama são arrastadas com ela.
- Ela compreendeu que a justiça e a misericórdia de Deus são amor. Em 1895, ofereceu-se como "VÍTIMA DE HOLOCAUSTO AO VOSSO AMOR", desejando ser consumida pelo fogo do amor divino, pois sentia que o amor de Deus era "desconhecido, rejeitado".
O Calvário e a "Noite da Fé":
- Em 3 de abril de 1896 (Sexta-feira Santa), Teresa teve sua primeira hemoptise, o que ela interpretou como o "primeiro chamado" de Jesus para o céu, embora ainda devesse sofrer muito.
- Começou, então, sua "noite escura" da fé, uma provação intensa e dolorosa onde o pensamento do céu se tornou um tormento. Ela se sentia rodeada por "espessas trevas", com a voz dos ímpios questionando a existência do céu e da vida eterna.
- Apesar dessa escuridão interior, ela continuou a praticar atos de fé, oferecendo-se para sofrer pelos incrédulos.
- Seu sofrimento físico e espiritual aumentou, mas ela mantinha a paz e a alegria, transformando cada dor em sacrifício. Ela dizia que não temia uma longa vida ou o combate, pois Deus a sustentaria.
- Mesmo em meio ao sofrimento e humilhações, ela mantinha a alegria e aceitava a vontade de Deus, compreendendo que isso a faria voar no caminho do amor.
- Em seus últimos momentos, apesar da "agonia pura, sem nenhuma mistura de consolação", suas últimas palavras foram "Oh!... amo-o!... meu Deus, eu... vos... amo!!!".
A Missão Póstuma:
- Santa Teresa do Menino Jesus morreu em 30 de setembro de 1897, aos 24 anos. Sua morte foi um "martírio de amor", no qual ela se inclinou como as virgens mártires.
- Seu desejo e promessa póstuma foram: "Quero passar meu céu a fazer o bem sobre a terra. Depois de minha morte, farei cair uma chuva de rosas". Ela não desejava permanecer inativa no céu, mas continuar a trabalhar pela Igreja e pelas almas, ensinando seu "pequeno caminho" de confiança e abandono.
- Ela comparou sua vida a um "grão de trigo" que, ao morrer, produz muito fruto, e sua morte foi o coroamento de uma vida de obras de caridade e sacrifício.
Em suma, "História de uma Alma" é o testemunho de uma alma que, através da simplicidade, da confiança ilimitada e do abandono à misericórdia de Deus, encontrou um caminho de santidade acessível a todos, onde o amor, mesmo nas pequenas coisas e em meio à maior das escuridões, é a única força capaz de transformar o "nada" em fogo divino. É uma lição de que o céu é alcançado não pela grandeza das obras, mas pela intensidade do amor e pela fidelidade aos menores detalhes da vontade divina, mesmo que isso signifique abraçar o sofrimento e a incompreensão, tornando-se, para Jesus, uma vítima de amor.