Guerra e cisma religioso paralisam Rússia em melancólica celebração do ‘Velho Ano Novo’

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22/jan/2026

Uma nação congelada no tempo

No início de 2026, enquanto a Rússia celebrava o seu tradicional “Velho Ano Novo” em 14 de janeiro, uma profunda sensação de estagnação pairava sobre o país. O conflito prolongado parece ter congelado não apenas o progresso material, mas também a vitalidade espiritual de uma nação dividida entre a retórica otimista oficial e um pessimismo silencioso que permeia a sociedade. Neste cenário, a Igreja Ortodoxa Russa, liderada pelo Patriarca Kirill, adota um tom cada vez mais sombrio e apocalíptico, aprofundando as fraturas no seio do cristianismo oriental.

A sociedade do sacrifício e a paralisia social

Analistas descrevem o estado atual da Rússia com a imagem de um Golem, a mítica figura de barro, atolado em um dever imutável imposto à sua população: servir à pátria, rezar pela vitória e gerar novos cidadãos para o esforço de guerra. Esta metáfora ilustra uma nação que se move sem vontade própria, presa em um ciclo de sacrifício, obediência religiosa e perpetuação demográfica. A guerra drenou a esperança, deixando um sentimento generalizado de que, apesar de tudo, o futuro será apenas uma repetição do presente.

A confiança nos dados oficiais é mínima, com as estatísticas sendo cada vez mais controladas e restritas. Torna-se quase impossível medir o verdadeiro sentimento popular, mas a fissura social é evidente. De um lado, uma parcela da população que adere publicamente à narrativa do governo, seja por convicção ou por medo. Do outro, uma minoria significativa, embora silenciada, que nutre um profundo pessimismo sobre os rumos do país. É neste pântano de incertezas que a Rússia se encontra, incapaz de avançar ou recuar.

A retórica apocalíptica do Patriarcado de Moscou

A voz do Patriarca Kirill de Moscou ressoa com particular força neste contexto de crise, mas aponta para uma direção preocupante. Sua perspectiva é abertamente apocalíptica, enquadrando o conflito não como uma disputa geopolítica, mas como uma batalha espiritual cósmica contra as forças do mal, que ele identifica com o Ocidente. Esta visão busca justificar o sofrimento do povo como um sacrifício purificador em uma guerra santa pela preservação dos valores tradicionais.

No entanto, sua batalha mais visível é travada dentro da própria Ortodoxia. O Patriarca Kirill intensificou seus ataques ao Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, a quem chegou a qualificar como um “demônio”. Essa linguagem chocante é o ápice da ruptura iniciada em 2018, quando Constantinopla reconheceu a independência da Igreja Ortodoxa da Ucrânia. Para Moscou, que considera a Ucrânia seu território canônico histórico, o ato foi uma traição e uma interferência indevida, vista como uma manobra para dividir o mundo ortodoxo. Esta fratura eclesial agrava o isolamento russo e alimenta um nacionalismo religioso que se afasta da universalidade da fé cristã.

Um novo ano que não começa

A celebração do “Velho Ano Novo”, que segue o antigo calendário juliano, adquire um simbolismo melancólico. O que deveria ser um momento de esperança torna-se um eco de um tempo que não passa. Para os cristãos, cada ano é um convite de Deus para renovar a esperança em Cristo, que “faz novas todas as coisas” (Ap 21,5). Num país onde o futuro parece congelado, a fé é chamada a ser uma fonte de calor, recordando que o desespero não tem a última palavra.

Diante desta dolorosa realidade, a Santa Sé continua a exortar incansavelmente à paz e ao diálogo. Como católicos, somos chamados a rezar fervorosamente pelos povos russo e ucraniano, para que a lógica das armas dê lugar a uma paz justa e duradoura. Rezamos também pela unidade dos cristãos, para que as feridas no corpo de Cristo, como o cisma entre Moscou e Constantinopla, possam ser curadas pela caridade e pela verdade.

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