Mensagem de Natal no Sudão: bispo denuncia guerra e clama por esperança

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03/jan/2026

Uma Luz em Meio às Trevas da Guerra

Em um Sudão devastado pela violência, pelo deslocamento forçado e pelo medo, uma voz de fé e esperança ecoou durante o Natal de 2025. Dom Yunan Tombe Trille Kuku Andali, bispo da Diocese Católica de El-Obeid, dirigiu-se ao povo de Deus com uma mensagem que reconhece o profundo sofrimento da nação, mas reafirma a promessa contida na celebração do nascimento de Cristo.

Para Dom Trille, a proclamação do Natal está enraizada na fidelidade de Deus. "O nascimento de Cristo é a manifestação da glória do nosso Deus", afirmou, explicando que este evento revela a promessa divina de salvação e paz para toda a criação. Segundo o bispo, com a vinda de Jesus, "a porta do céu se abre para nós" e a reconciliação se torna uma realidade palpável, pois "o nascimento de Cristo abre o caminho para a nossa reconciliação com o nosso Criador".

A Manjedoura e a Tragédia Humanitária

Em uma poderosa analogia, o bispo traçou um paralelo direto entre a simplicidade da manjedoura e a grave crise humanitária que assola o Sudão. "Ver o menino Jesus na manjedoura descreve a situação de todos aqueles em nosso país que permanecem sem abrigo e com medo", lamentou. Esta imagem ressoa profundamente em uma nação onde milhões foram forçados a abandonar seus lares.

A situação em sua própria diocese é crítica. "Nossa diocese em Kordofan tornou-se o campo de batalha depois de Darfur", disse ele, detalhando que um "grande número de suas paróquias estão desertas e profanadas". O impacto na vida pastoral é severo, com comunidades inteiras privadas de assistência espiritual: "Não há sacerdotes para celebrar os sacramentos sagrados para os fiéis".

Um Conflito com Números Devastadores

A guerra civil no Sudão, que eclodiu em 15 de abril de 2023, opõe as Forças de Apoio Rápido (RSF) às Forças Armadas Sudanesas (SAF). O que começou na capital, Cartum, rapidamente se espalhou por todo o país, gerando uma das piores crises humanitárias do mundo.

As estimativas apontam para um número de mortos que pode chegar a 150.000 pessoas. Mais de 14 milhões de sudaneses foram deslocados, buscando refúgio dentro do próprio país ou em nações vizinhas igualmente instáveis. Atualmente, o Sudão tem o maior número de deslocados internos do planeta, ultrapassando a marca de 12 milhões de pessoas que fugiram da violência nos últimos dois anos.

A fome também se tornou uma arma de guerra. Cerca de 30,4 milhões de pessoas, mais da metade da população, necessitam de ajuda humanitária urgente. O país registra o maior número de pessoas em níveis emergenciais ou catastróficos de fome, com mais de 600.000 vivendo em condições de inanição e outros 8 milhões à beira do colapso alimentar.

Um Apelo à Solidariedade e à Fé Viva

Diante deste cenário desolador, e enquanto o país se aproxima do 70º aniversário de sua independência em 2026, Dom Trille fez um apelo pastoral fundamentado na compaixão e na fé. Ele convocou o povo de Deus a se ver como "irmãos e irmãs em solidariedade, chorando com os pais e parentes daqueles que choram os mortos".

Recordando as palavras de Jesus, "O que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes", o bispo exortou os fiéis a uma ação concreta de fé. A sua mensagem conclui com um convite profundo à conversão pessoal e comunitária: "Façamos de nossos corações a manjedoura onde o menino Jesus possa viver para nos ajudar a renovar nossas vidas e a viver em paz".

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