Este é um artigo do site ChurchPop
“Tenho pena da minha esposa e dos meus filhos!” — foi esse o grito desesperado que ecoou na praça de apelo de Auschwitz no dia 29 de julho de 1941, quando Franciszek Gajowniczek, prisioneiro número 5659, foi condenado à morte por fome. O motivo? Um prisioneiro havia fugido do campo, e os nazistas escolheram dez homens como punição exemplar.
Foi então que o improvável aconteceu. Um frade franciscano se adiantou em meio à formação dos prisioneiros e disse ao comandante nazista:
“Sou sacerdote. Quero morrer por este homem.”
O nome dele era Maximiliano Kolbe, hoje santo da Igreja Católica. O gesto de amor e entrega salvou Gajowniczek — e marcou sua vida para sempre.
A história, relatada em detalhes pelo jornalista polonês Krzysztof Kunert no portal National Catholic Register, revela não apenas um momento de heroísmo, mas o desenrolar de uma existência profundamente transformada pelo sacrifício de um santo.
Uma vida antes do campo de concentração
Franciszek nasceu em 15 de novembro de 1901, em Strachomin, na Polônia. Militar de carreira, participou de combates e chegou a ser ferido em um golpe político em 1926. Anos depois, casou-se com Helena, com quem teve dois filhos: Bogdan e Juliusz.
A família vivia uma rotina tranquila em Varsóvia — até que a Segunda Guerra Mundial mudou tudo.
Em 1939, Franciszek combateu os nazistas e foi capturado após uma tentativa de fuga. Preso pela Gestapo e submetido a longos interrogatórios, foi finalmente enviado a Auschwitz em setembro de 1940.
Salvo por um santo
Menos de um ano depois de sua chegada ao campo, Franciszek foi incluído entre os dez escolhidos para morrer. O que ele não sabia é que aquele momento de desespero daria início à mais poderosa das histórias de redenção do século XX.
São Maximiliano Kolbe — já preso por seu apostolado e influência religiosa — se ofereceu para morrer em seu lugar. O pedido foi aceito, e o padre foi trancado com outros nove homens em uma cela de fome. Foi o último a morrer, após duas semanas de agonia. Recebeu a injeção letal no dia 14 de agosto de 1941.
Franciszek sobreviveu. Mas nunca se esqueceu.
“Mais ainda, eu queria viver para que o sacrifício do Padre Kolbe não fosse em vão. Como poderia desperdiçar a vida que ele me deu?”, diria anos depois.
Sofrimento e testemunho
Mesmo salvo da morte naquele dia, Franciszek continuou sofrendo. Sobreviveu ao tifo em 1942, foi transferido para outros campos e sobreviveu até mesmo a uma marcha da morte duas semanas antes do fim da guerra — 12 dias sem comida ou água.
Quando finalmente retornou à Polônia, em 1945, encontrou sua esposa — mas descobriu que seus dois filhos haviam morrido durante um bombardeio da União Soviética. Helena havia saído de casa para enviar um pacote ao marido no campo; quando voltou, os meninos já estavam mortos.
“Melhor teria sido se eu morresse e eles vivessem… Mas essa foi a vontade de Deus”, desabafou.
A “relíquia viva” de São Maximiliano Kolbe
Gajowniczek dedicou o resto da vida a dar testemunho. Sua história foi publicada em 1946 na revista Cavaleiro da Imaculada, fundada por Kolbe. Intitulada “A voz do sobrevivente”, a publicação terminou com um tributo:
“A fé foi meu único sustento. O sacrifício de Kolbe intensificou minha devoção à Igreja, que dá à luz heróis.”
Franciszek esteve presente na beatificação de Kolbe em 1971 por São Paulo VI, e também na canonização feita por São João Paulo II, em 1982 — o mesmo ano em que Helena faleceu.
Em 1995, aos 93 anos, ele faleceu em Brzeg, na Polônia, e foi sepultado no santuário de Niepokalanów, onde viveu São Maximiliano Kolbe. O bispo presente declarou:
“Ele foi uma relíquia viva deixada por São Maximiliano.”
Um exemplo para nosso tempo
A história de Franciszek Gajowniczek é uma daquelas que não pode ser esquecida. Não apenas pelo ato heroico de São Maximiliano, mas por tudo o que veio depois: a dor, a fé, o testemunho incansável e o perdão.
Hoje, trinta anos após sua morte, sua vida continua a nos lembrar que o amor é mais forte que o ódio, a luz mais forte que as trevas — e que vale a pena viver por um propósito maior do que nós mesmos.
“Quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, esse a salvará” (Lucas 9,24).