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Cardeal Scherer: Campanha da Fraternidade na Quaresma, alguns equívocos

A Campanha da Fraternidade não deveria ser vista como uma atividade paralela à Quaresma, nem, muito menos, como iniciativa substitutiva da Quaresma, mas nela inserida.

Cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo

E stamos no meio da Quaresma e da Campanha da Fraternidade, tempo favorável para preparar a celebração da Páscoa deste ano, que já se aproxima. A Igreja convida seus filhos, durante este período litúrgico, à penitência para uma sincera e profunda conversão a Deus. Para isso, ela indica os exercícios quaresmais do jejum, da oração e da esmola, que deveriam ajudar-nos a fazer uma profunda avaliação de nossa vida, predispondo-nos à busca do perdão de Deus e à renovação dos compromissos batismais na celebração da Páscoa.

A promoção da Campanha da Fraternidade, durante a Quaresma, insere-se nessa busca de conversão e renovação da vida cristã. A Campanha da Fraternidade não deveria ser vista como uma atividade paralela à Quaresma, nem, muito menos, como iniciativa substitutiva da Quaresma, mas nela inserida. Infelizmente, porém, esse mal-entendido existe, quer da parte de quem combate a Campanha, como também da parte de quem faz dela o único assunto da Quaresma. Nem uma coisa, nem outra é boa.

Para quem combate a Campanha, é preciso lembrar que o objetivo fundamental dela é promover a fraternidade (caridade) em alguma questão da convivência social. Ela sempre propõe um tema que faz refletir sobre a vivência da fraternidade, a justiça e a caridade, valores essenciais no Evangelho de Cristo. Se o tema pode não parecer explicitamente religioso (ecologia integral, segurança pública, saneamento básico), ele, no entanto, é encarado na Campanha a partir de suas implicações religiosas e morais.

Alguém duvida que a temática da ecologia integral está relacionada com a nossa fé no Deus Criador, com nossa responsabilidade humana no cuidado da obra do Criador e com o senso de respeito ao próximo, de justiça e fraternidade? Não se pode dizer o mesmo em relação a todos os temas “sociais” que a Campanha da Fraternidade já abordou nas seis décadas de sua existência? A fé e a moral cristãs não podem ser vividas de maneira abstrata e desencarnada, fora da realidade que nos cerca. Os verdadeiros Santos deram-nos o exemplo: sua fé profunda em Deus e a moral do Evangelho que viviam levaram-nos sempre a uma sensibilidade especial em relação aos sofrimentos do próximo e aos problemas sociais. E a Igreja foi enviada em missão ao mundo não apenas para “salvar almas”, mas para salvar pessoas, que têm corpos e vivem situações específicas, para se envolver com seus sofrimentos e necessidades e para anunciar o Evangelho da salvação, que inclui o cuidado das pessoas neste mundo e tem implicações na convivência social. Foi o que o próprio Jesus fez o tempo todo.

Mas é preciso recordar também àqueles que reduzem a Quaresma à Campanha da Fraternidade: ela é um aspecto dos exercícios quaresmais e não se devem deixar na sombra ou no silêncio os outros exercícios, que visam à conversão pessoal e social a Deus, como a penitência unida à busca sincera de Deus, a escuta atenta e a acolhida da Palavra de Deus, a recordação dos mandamentos, dos fundamentos da fé e da moral cristãs, o incentivo à caridade concreta e a exortação à confissão sacramental. A fé cristã é adesão pessoal a Deus e a moral é a expressão da vida decorrente da fé. Na noite da Páscoa, como conclusão dos exercícios quaresmais, é feita a renovação das promessas batismais, pelas quais reafirmamos nossa “renúncia a Satanás” e nossa adesão a Deus, mediante a profissão da fé católica. Que significado teria isso, se não fosse precedido de um sério esforço de revisão de vida, em todos os sentidos, do arrependimento dos pecados e da disposição de nos voltarmos para Deus de todo coração?

Também a coleta da Campanha da Fraternidade, no Domingo de Ramos, perde o seu sentido quando não é fruto consciente e expressão de nossa vivência quaresmal e da nossa partilha fraterna com os necessitados. Ela é uma expressão da nossa vivência quaresmal e não se deve reduzir ao gesto quase mecânico de oferecer “alguma coisa” na hora em que a cestinha da coleta passa pela igreja. Esse gesto concreto deveria ser preparado durante toda a Quaresma, mediante as renúncias de consumo que fazemos, como “penitências” quaresmais, ou as doações que nos propomos com esse mesmo propósito. Então, sim, será um verdadeiro gesto de partilha fraterna, fruto da Quaresma.

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