Quando escuta a mensagem das criaturas e a voz de sua consciência, o homem pode atingir a certeza da existência de Deus, causa e fim de tudo. A grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar seu Autor.
Luís Eugênio Sanábio e Souza e padre Elílio de Faria Matos Júnior
Criado à imagem de Deus, chamado a conhecer e a amar a Deus, o homem que procura a Deus descobre certos caminhos ou vias de acesso ao conhecimento de Deus. A Igreja Católica explica que estas vias podem ser entendidas como provas da existência de Deus no sentido de “argumentos convergentes e convincentes” que permitem chegar a verdadeiras certezas. São vias que têm como ponto de partida a criação: o mundo material e a pessoa humana. Santo Tomás de Aquino, proposto pela Igreja como o grande mestre do universalismo filosófico e teológico (Concílio Vaticano II: OT, 16; Código de Direito Canônico, cânon 252§3), apresentou, em sua reflexão, cinco vias para chegarmos a Deus. São as famosas “Quinque viae” de Santo Tomás que aqui iremos explicar neste presente artigo, de maneira resumida.
1 – Via do Movimento: Baseia-se no fato de que tudo o que se move é movido por algo. É claro e evidente que existe algo no mundo que é movido. Isso leva à necessidade de um “primeiro motor imóvel”, que seria Deus.
2 – Via da Causa Eficiente: Observa que todas as coisas têm uma causa e que não é possível um regresso infinito de causas. Assim, deve haver uma “causa primeira incausada”, que é Deus.
3 – Via da Contingência e Necessidade: Aponta que as coisas no mundo são contingentes (podem ou não existir). Para que algo exista, deve haver um ser necessário que não dependa de nada, que seria Deus. Deus chama à existência “ex nihilo”, isto é, “do nada”.
4 – Via dos Graus de Perfeição: Nota que há diferentes graus de perfeição nas coisas. Entre as coisas encontramos algo que é mais ou menos bom, verdadeiro, nobre e outras qualidades. Isso sugere a existência de um ser absolutamente perfeito, que é Deus.
5 – Via da finalidade: Observa que as coisas no mundo agem com um propósito, mesmo as que não têm inteligência própria, o que indica um ser inteligente que dirige tudo, ou seja, Deus. Vemos que coisas sem inteligência operam de maneira ordenada e para um fim. Isso não pode ser por acaso, mas por designação; logo, deve haver algum ser inteligente que ordena todas as coisas segundo um propósito, e a quem chamamos Deus.
Assim, por estas diversas vias, o homem pode ter acesso ao conhecimento da existência duma realidade que é a causa primeira e o fim último de tudo, e a que todos chamam Deus. Portanto, a Igreja sustenta e ensina que mediante a razão natural, o homem pode conhecer a Deus com certeza a partir de suas obras. Quando escuta a mensagem das criaturas e a voz de sua consciência, o homem pode atingir a certeza da existência de Deus, causa e fim de tudo. A grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar seu Autor. Mas, para que o homem possa entrar na intimidade divina, Deus quis revelar-se ao homem e dar-lhe a graça de poder acolher esta revelação na fé. As provas da existência de Deus podem ajudar a ver que a fé não se opõe à razão humana. Em razão das fragilidades do homem, provenientes do pecado, a Igreja considera que o homem tem necessidade de ser iluminado pela revelação de Deus, não somente sobre o que ultrapassa seu entendimento, mas também sobre “as verdades religiosas e morais que, de per si, não são inacessíveis à razão, a fim de que estas no estado atual do gênero humano possam ser conhecidas por todos sem dificuldade, com uma certeza firme e sem mistura de erro” (Concílio Vaticano I: DF, II). Por amor, Deus revelou-se e doou-se ao homem. Traz assim uma resposta definitiva e superabundante às questões que o homem se faz acerca do sentido e do objetivo de sua vida.
Luís Eugênio Sanábio e Souza – Escritor
Pe. Elílio de Faria Matos Júnior – Professor de Teologia no Seminário Arquidiocesano de Juiz de Fora e no Instituto Teológico Franciscano, de Petrópolis